Alziro Barbosa

Direção de Fotografia

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Mistéryos

Sinopse: O jovem padeiro Astolfo conhece a empregada doméstica Jucélia. Apaixonado, Astolfo convida Jucélia para um passeio no trem fantasma de um parque de diversões. No exato momento em que o homem pisa na Lua, a jovem Jucélia Ramos desaparece misteriosamente dentro do trem fantasma. Astolfo torna-se o principal suspeito do desaparecimento. Quem teria sido Jucélia Ramos? Seria o trem fantasma um lugar assombrado e almas de outro mundo teriam carregado Jucélia Ramos? Teria sido vingança dos extraterrestres irritados com a chegada do homem na Lua? Realidade? Ficção? Mistéryos!


Ficha técnica

Direção: Beto Carminatti, Pedro Merege

Roteiro: Gil Baroni, Beto Carminatti, Pedro Merege, Monica Rischbieter, José Rubens Siqueira, Valêncio Xavier (romance)

Direção de Fotografia: Alziro Barbosa

Elenco principal: Carlos Vereza, Sthefany Brito e Leonardo Miggiorin

Gênero: Suspense

Formato: 35mm anamórfico

Duração: 82 minutos

Ano: 2008

Prêmios e Indicações de Fotografia

2009
Indicado ao prêmio de melhor fotografia brasileira (ABC)

2009
Festival de Recife: melhor fotografia de longa metragem

2009
Festival de Cinema de Maringá: melhor fotografia de longa metragem

Prêmios e Seleções do filme

2009
Selecionado para o Festival de Cinema da Espanha

2009
Selecionado para a Mostra Internacional de São Paulo

2009
Selecionado para a Mostra de Tiradentes

2009
Festival de Maringá: melhor direção de arte (Zenor Ribas), melhor ator (Carlos Vereza), melhor atriz (Sthefany Brito), melhor figurino (Marisol Urban Grossi) e
melhor montagem (Fernando Severo)

2009
Festival de Recife: melhor direção de arte (Zenor Ribas) e melhor ator coadjuvante (Leonardo Miggiorim)

2009
Festival de Cinema da Lapa: melhor maquiagem (Marcelino de Miranda)

2008
Festival de Cinema do Paraná: melhor direção (Beto Carminatti e Pedro Merege)

Links

Galeria de frames

Crítica

Por Rodrigo Fonseca (O Globo)

Tiradentes foi para a cama na noite de domingo envolto em 'Mistéryos', uma surpresa curitibana assinada por Pedro Merege e Beto Carminatti. Durante 82 minutos a mostra mineira, que dá a largada para o circuito nacional de festivais, mergulhou na estranheza que pauta a literatura do escritor paulista radicado no Paraná Valêncio Xavier (1933-2008), cuja prosa parece uma mescla de Dostoiévski com David Lynch. O filme se embrenha pelo surrealismo de proveta que Xavier depura na coletânea de contos (?) 'O mez da grippe', editado pela Cia das Letras com requinte de impressão em espacial nas invenções gráficas que calçam a narrativa, fazendo uma amarelinha imagética com os parágrafos do escritor.

A partir da cuidadosa montagem de Fernando Severo (diretor do premiado curta-metragem 'Visionários'), o filme de Merege e Caminatti estabelece uma interação com o formato de texto/ ilustração perseguido por Xavier no livro. Recursos de animação recriam reportagens de jornais, desenhos de bestiários e figuras geométricas variadas que se conjugam para traduzir o clima de incertezas que rege o périplo existencialista de VX. O par de letras ao lado é a nomenclatura utilizada para definir o protagonista do filme, interpretado por Carlos Vereza com um vigor exemplar.

Com fotografia de Alziro Barbosa, 'Mistéryos' segue VX pelas ruas de uma Curitiba de cores contes, que se remete às memórias da cidade na década de 1960. Espécie de flâneur baudelairiano, VX trafega por esquinas e avenidas buscando ordenar, em seu imaginário cindido pela solidão e pela crença no acaso, situações aparentemente surreais da geografia curitibana notívaga. Um lobisomem, um bêbado que rega árvores com uma urina espessa, uma beldade que deixa os seios à mostra numa janela aberta e outros seres anônimos desfilam pela fauna que permeia a provinciana localidade que VX chama de lar. Não se sabe ao certo se esses tipos, dignos de um 'O médico e o monstro' ou de qualquer outra ficção de Robert Louis Stevenson (1850-1894), residem apenas nos devaneios do alter ego de Xavier ou não. O caso é que, mesmo com essa suspeita no ar, ou melhor, na tela, o espectador se sente impelido a decifrar aquele oceano de signos de significantes deformados.

Na trama, VX elege como primeira fronteira a ser desbravada no planisfério de causos inexplicáveis colecionados noite adentro o desaparecimento de uma jovem (Stephany Brito) em um trem-fantasma. Em seguida, tenta compreender a história de um aspirante a diretor que, na era do cinema mudo, roda um filme erótico sobre a poetisa Safo, de Lesbos, e suas amantes. Safo também é interpretada por Stephany, que volta a aparecer como a ajudante de um mágico que banha seus truques em sangue. A onipresença de Stephany costura o longa como uma ciranda de obsessões em que VX tenta compreender o limite que separa a perversão do profano. A pergunta que guia o personagem de Vereza é: que patologias o desejo carnal e a carência encobrem?

Nesse esforço de entendimento o arranjo dramático elaborado por Merege e Carminatti se aproxima de outra radiografia curitibana feita pelo cinema brasileiro: 'Guerra conjugal' (1975), de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), baseado em escritos de Dalton Trevisan. Ali, a 'neurose' era a incapacidade da satisfação amorosa a partir de regras de convivência pré-estabelecidas pela cartilha de moral e cívica dos valores de família. Em 'Mistéryos', a angústia envolve a incapacidade de ordenação daquilo que não passa por normas morais consolidadas em um universo de comportamentos excessivamente controlados e regidos pela lei.

É esse recorte-flagrante de um provincianismo de contenções e castrações que justifica o arranjo estilístico do longa na condução das falas de V(ereza)X e em suas reflexões mais íntimas. As frases do personagem são lançadas como postulados matemáticos, em uma cadência de silogismos. É a forma que VX encontra de somatizar o opressivo racionalismo em que está afogado – racionalismo este que não sobrevive ao jorro de encontros com fenômenos bizarros vivido por ele.

Esse paranóico retrato de Curitiba evoca algo mais do que a prosa de Xavier. No segmento dos filmes eróticos relacionados ao diretor de 'Safo', o longa resvala na tradição do cinema brasileiro em Super-8, com suas experiências ficcionais guiadas pela ambição da transgressão formal. Já no campo da cenografia e da direção de arte, a referência mais presente são as histórias em quadrinhos européias. Mergulhe em 'A pior banda do mundo – O museu nacional do acessório e do irrelevante', do português José Carlos Fernandes, e confira as afinidades.

Embora pouco conhecido entre os cariocas, Xavier passou a ser rediscutido a partir das citações a ele feitas pelo (genial) romance 'O cheiro do ralo', de Lourenço Mutarelli. O quadrinista e escritor, autor de 'O natimorto', é fã de Xavier. Mutarelli desenvolveu sua voz literária em paralelo com os ensaios sobre psiquês obcecadas feitas por Xavier.

Por Eduardo Valente (Cinética)

Para além de suas qualidades ou defeitos específicos, que vamos tentar explorar mais na frente, o primeiro e maior elogio necessário a este Mistéryos é sua presença como um OVNI no cinema brasileiro – atual, principalmente, mas mesmo historicamente falando. Provavelmente precisamos voltar dez anos até o Bocage de Djalma Limongi Batista para lembrar de um filme que se estruturasse de maneira tão solta a partir de uma idéia de transformar em imagens não apenas a obra, mas também o subtexto de um autor literário (aqui, o paranaense Valêncio Xavier). Claro que ambos os filmes são tão diferentes como podem ser um poeta português satírico e erótico do século XVIII e um contemporâneo escritor curitibano, mas os aproxima tanto uma certa sensualidade latente (mais comedida aqui, mas ainda assim bem forte) quanto principalmente um prazer pela construção pictórica da cena que possui semelhanças fortes com os primeiros (e mais interessantes) filmes do inglês Peter Greenaway.

O começo deste Mistéryos entusiasma bastante, com o passeio do alter-ego de Valêncio interpretado por Carlos Vereza (nos créditos identificado como VX) pelas ruas iluminadas pelo fotógrafo Alziro Barbosa a partir de uma unilateralidade que busca um jogo de claros e escuros bastante radical. Ele presencia cenas insólitas (uma mulher seminua que puxa o que parecia ser um ladrão para dentro da sua casa, um homem fantasiado de gorila que mija num poste), até chegar na sua casa, onde chama a sua atenção a imagem de três velas acesas, aparentemente suspensas no ar, que servirão de mote para a ida e vinda de três narrativas bastante soltas a partir da idéia do 'mistério', da irrupção do inexplicável na vida de alguns personagens.

A primeira narrativa, a do sumiço de uma moça no trem-fantasma de um parque nos anos 60 é a que ainda se move da maneira mais tradicional, trabalhando com a noção de suspense e uma saudável brincadeira tanto com o cinema de gênero como com a teatralidade e o falseamento da ficção cinematográfica. Stephany Britto e Leonardo Miggiorin parecem incorporar as personas de seus personagens com bastante sucesso, e há um sentimento bastante pronunciado de diversão, seja na retomada de uma certa estética antiquada, seja na idéia mesmo de suspense e fantástico com que se deseja brincar. No entanto, o uso constante de grafismos e desenhos entre as cenas, embora remeta ao próprio trabalho de Xavier, bastante marcado pela visualidade mesmo no formato do livro, atravanca um tanto o ritmo do filme.

As outras narrativas possuem um caráter cada vez mais etéreo, parecendo muito mais com epifanias do personagem-narrador Xavier. Uma delas fala de um misterioso cineasta, realizador de uma única obra nos anos 20, permite aos diretores tanto brincarem com a forma ao reconstituir o que seria um tal filme erótico desta década (com uma sensualidade marota bem interessante) quanto darem conta do papel histórico que Xavier tem em Curitiba junto à Cinemateca local. Há ali o desejo de assumir uma certa regionalidade (com referências ao que seria uma história do cinema paranaense) que é bastante bem vinda, principalmente em se tratando de um estado e cidade cujas identidades são bem menos marcadas no imaginário brasileiro.

É preciso que se diga que, ao longo de sua duração, Mistéryos perde um tanto da força hipnótica do seu começo com o personagem que vaga pelas ruas e perscruta a decoração da sua casa. Em parte pela (bela) trilha sonora e a narração em off hiper-presentes, em parte pela sua estrutura episódica e alusiva, que exige dos diretores uma certeza e domínio do tempo e da construção de cena que eles não chegam a atingir de todo, Mistéryos não chega a poder ser afirmado como um sucesso completo no seu resultado total. Mas, o que precisa ser dito é que é uma tentativa inesperada e bastante instigante, que consegue momentos isolados de grande potência – algo que, convenhamos, não se pode dizer de todo filme brasileiro que vemos.

Por Nikola Matevski (Gazeta do Povo - Maringá)

Às 18 horas de terça-feira (16), cerca de 60 pessoas saíram da casa número 100 da Rua Ceará, em Curitiba, rumo a Piraquara. Depois de 40 minutos de viagem e algumas lombadas, as vans adentraram uma passagem estreita que leva até a igreja de São Roque. A construção contemporânea foi o local escolhido pelos cinestas Beto Carminatti e Pedro Merege para a filmagem de algumas cenas noturnas do longa-metragem 'Mistéryos'.

Foi preciso acomodar cerca de 20 figurantes, lidar com cabos, montar suportes de luz, colocar gelatinas, aplicar filtros, posicionar os trilhos, abrir os tripés, entre mais algumas centenas de detalhes minuciosos que exige uma produção de grande porte. Apenas às 22h30 os cineastas começaram a ensaiar as cenas e discutir o trabalho com o ator principal. O veterano Carlos Vereza (que viveu o escritor Graciliano Ramos em 'Memórias do Cárcere') teve de ir e voltar algumas vezes diante da igreja e sua grande porta, uma de tantas presentes em 'Mistéryos'.

'É o momento da porta das três velas, um motivo recorrente e fio condutor do filme, em que o personagem interpretado por Vereza entra e se encontra com um cego que fala passagens proféticas', descreve Carminatti. A ação pertence ao 'Mistério Números', um dos quatro contos de Valêncio Xavier que compõem o roteiro do filme, assinado pelos diretores em conjunto com Monica Rischbieter e Gil Baroni (também produtores) e José Rubens Siqueira. Outros são o 'Mistério da Porta Aberta', 'Mistério no Trem Fantasma' e o 'Mistério Sapho: O Amor entre as Mulheres', todos publicados em 'O Mez da Grippe'.

''O Mistério da Porta Aberta' é o portal de acesso a outros mistérios e é o elo entre as diferentes histórias – o personagem diante de uma porta entreaberta e a dúvida dele sobre o que haverá adiante daquela porta', conta Merege.

A câmera montada em um trilho que seguiu Vereza era dotada de lentes anamórficas, em uma das poucas vezes em que a tecnologia foi usada no Brasil. 'A gente está trazendo para o Brasil, e talvez para a América Latina, uma nova geração de lentes anamórficas que tem como diferencial a capacidade de filmar com pouca luz', explica Merege. A lente anamórfica comprime na largura de um filme 35mm uma imagem muito mais larga que a usual. O recurso pode ser visto nos westerns spaghetti dirigidos por Sergio Leone, que utilizava o formato para explorar as extremidades da imagem.

'O uso dessas lentes possui uma razão dramatúrgica, que é trabalhar com mais expressividade toda a composição da cena do ponto de vista da direção de arte e do ator', afirma Carminatti.

A intenção é buscar referências expressionistas para imprimir uma sensação de fantasmagoria nas imagens, dentro do que os cineastas descrevem como um 'estado de suspensão'. 'Não é suspense, porque não estamos fazendo filme de gênero, mas um cinema que trate a imagem de forma real, fazendo com que o espectador veja o filme em estado de suspensão', continua o diretor.

Nas palavras de Pedro Merge, a proposta 'é colocar imaginário, imaginação, memória e criações mentais como imagens reais'. 'A gente quer circular muito em torno das verdade e das mentiras, não de um ponto de vista moral, mas do ponto de vista de um cinema de invenção', reitera Carminatti.

A direção de fotografia propriemante dita coube a Alziro Barbosa, premiado por seu desempenho no curta-metragem 'O Mistério da Japonesa', também de Merege e Carminatti, baseado em outro conto de 'O Mez da Grippe'.

Os cineastas também elogiam o profissionalismo e desempenho do elenco jovem, que inclui os globais Sthefany Brito e Leonardo Miggiorin, além de paranenses como Marco Zeni, Janaína Spoladore e a veterana Lala Schneider.

Por Fabio Andrade (Cinética)

Logo no início do filme, a personagem de Carlos Vereza, alter-ego que carrega as iniciais do autor, olha para uma porta entreaberta. Dentro, três velas flutuam acesas em uma absoluta escuridão. A câmera, o olho do filme, faz um dolly em direção à porta; em vez de se aproximar das velas, adentra o negro que as separa. Existe aí uma filiação a um cinema que se interessa pela beleza do truque (que é o mistério criado por alguém, como diz a narração em off de Vereza), que é fascinante não só por ser rara, mas também quente e bastante bem executada.

Mistéryos revolve a memória de sua personagem, como em uma inversão de O Retrato Oval, de Edgar Allan Poe: pintar o que morreu é uma maneira de devolver a vida. Nesse sentido, a mais expressiva bifurcação dentro do filme é aquela em que o narrador encontra alguns dos rolos perdidos de Sapho – O Amor Entre As Mulheres, curta metragem erótico curitibano que, já absolutamente deteriorado, retoma, magicamente, sua imagem dentro do filme. Esse trecho é essencial não só por compor a vocação restauradora prática e existencial da personagem, mas principalmente por sublinhar a memória como seleção, como juízo a partir dos restos (as cenas de nudez frontal retiradas do filme por uma outra pessoa), onde o que permanece é, muitas vezes, aquilo que não interessou a seu dono anterior.

Carminatti e Merege parecem interessados justamente nessas lacunas, nesse espaço negro que se perde entre as velas.

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