Alziro Barbosa

Direção de Fotografia

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Cores

Sinopse: São Paulo. Dias Atuais. O Brasil vive um momento de crescimento econômico.

CORES é uma história de amizade e desilusão entre três jovens amigos em uma grande metrópole.

Luca (31) é um tatuador e mora com sua avó. Ele mantém seu estúdio de tatuagem nos fundos da casa em um bairro periférico da cidade. Luiz (29) mora em uma pensão no centro da cidade, faz bicos com sua moto e trabalha em uma drogaria, e Luara (30), sua namorada, é uma garota que reside em um apartamento na frente do aeroporto e deposita todo seu tempo no trabalho em uma loja de peixes ornamentais para espantar a solidão e conseguir financiar uma viagem para o exterior.

A vida dos 3 amigos é marcada por uma rotina ordinária e pelo consumo à alienação impregnada pela sociedade de consumo.

Longe de moralismos ou de teorias deterministas, o filme quer apenas contar uma história e apontar suas contradições, em que o maior sintoma do jovem contemporânea é a falta de perspectiva e a solidão.

Ficha técnica

Direção: Francisco Garcia

Elenco: Simone Iliescu, Acauã Sol, Pedro di Pietro e Maria Célia Camargo

Roteiro: Francisco Garcia e Gabriel Campos

Preparação de Elenco: Michel Dubret

Produção: André Gevaerd e Sara Silveira

Produção Executiva: Guilherme Pinheiro e Maria Ianescu

Direção de Produção: Ronald Kashima

Fotografia: Alziro Barbosa

Direção de Arte: Mônica Palazzo

Montagem: André Gevaerd

Som: Tiago Bittencourt

Música Original: Wilson Sukorski

Formato: Digital 5K

Ano: 2012

Prêmios e Indicações de Fotografia

2013 – Festival Brasil de Cinema Internacional
Melhor Direção de Fotografia (Alziro Barbosa)

Festivais e Prêmios

2013 – Festival Brasil de Cinema Internacional
Menção Honrosa: Longa metragem de ficcção: Cores (Francisco Garcia)
Troféu Brasileirinho: Ator coadjuvante (Tonico Pereira) e Direção de Arte (Mônica Palazzo)

2013
Glasgow Film Festival – Official Selection

2013
53º FICCI Cartagena – Official Selection

2012
IV Semana dos Realizadores – Seleção Oficial

2012
36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Seleção Oficial / Competição Novos Diretores

2012
60º Festival de San Sebastián – Official Selection / KUTXA Nuevos Directores

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Extras

Crítica

Por Flavia Guerra (Estado de São Paulo)

Compro, logo existo. Se o filme Cores, que chega hoje aos cinemas, precisasse de uma frase para resumir a palavra de ordem dos jovens que retrata, esta seria certamente uma das mais adequadas. Primeiro longa-metragem de Francisco Garcia, o filme surge no otimista cenário nacional para, em vez de seguir a estrutura clássica de contar a trajetória do herói que nos inspira na tela, desestruturar a narrativa, e o espectador, para revelar, em vez de uma juventude que vive sua fase mais colorida, a vida de três paulistanos que se arrastam pelo dia a dia cinza da grande metrópole. Sem grandes ideais e perspectivas, são movidos muito mais pela lógica da sociedade de consumo.

Propositalmente rodado em preto e branco, Cores conta a história de Luiz, Luca e Luara. Ela, de 30, trabalha em uma loja de peixes ornamentais, namora Luiz e vive em um 'não lugar', um apartamento com vista para a pista do Aeroporto de Congonhas. Seu único objetivo é juntar dinheiro para fazer uma viagem. Já Luca, 31, é um tatuador que, por trás da agressividade exibida por suas tattoos, esconde a delicadeza que tem ao tratar a avó, com quem mora em um bairro tradicional de subúrbio. Luiz, 29, vive em uma típica pensão no centro, trabalha em uma farmácia, de onde 'empresta' alguns remédios tarja preta e faz bicos suspeitos com sua moto. Sem grandes ambições ou convicções, passam seu tempo bebendo, fumando, consumindo e circulando, quase sempre sozinhos, pela cidade.

Longa que fez sua pré-estreia mundial no Festival de San Sebastian 2012 e já rodou outros importantes eventos de cinema no mundo, Cores retrata com precisa cirúrgica uma geração à deriva. Seria um tanto deslocado detectar que, em meio ao Brasil que cresce economicamente e é 'a bola da vez', há uma camada de brasileiros que transita entre a melancolia e a inércia? E que não vive este tal milagre econômico pós-moderno? 'Não. Os personagens são muito próximos de nós. Somos de uma geração que cresceu na crise dos anos 80, em um país economicamente instável, na era do pós tudo. As ideologias, a moral, a fé... Tudo perdeu o sentido. Só o consumo os move', comenta o roteirista Gabriel Campos, de 29. 'É uma geração que já não é mais adolescente, mas que tampouco é idosa, mas que agora não sabe onde se situar. Muito do que está no filme foi inspirado em nossos amigos, que vivem uma trajetória muitas vezes sem estrutura', completa Garcia, de 32.

É exatamente a anti estrutura do roteiro, o anti drama, que traduz a falta de perspectiva de Luara, Luca e Luiz. 'Em sua forma, não só no p&b, mas em seu som, no tempo dilatado, na sensação de que algo vai acontecer a qualquer momento, mas nada acontece. Tudo isso foi pensado, para traduzir a falta de motivação e horizonte deles. A cidade se movimenta, mas eles não saem do lugar', comenta a dupla.

É de fato quase física a sensação de ar rarefeito e desbotamento dos sonhos de juventude que sente ao ver São Paulo filmada em tantos tons de cinza, observar a tartaruga de estimação que é capaz de caminhar mais rápido que o trio de protagonistas, a chuva que cai incessante e pesada.

Para completar, o peso deste cotidiano opressivo é sentido cada vez que a densa trilha sonora é executada. Os jovens de Cores vivem o fim das utopias e, ao mesmo tempo, veem Lula discursar otimista na TV sobre o bom momento do Brasil. A mesma TV transmite as já clássicas notícias sobre as chuvas que castigam a cidade a cada verão. Isso provoca qualquer esboço de reação no trio? Não. Eles observam tudo impassíveis, em uma imobilidade tão sufocante quanto ironicamente bela.

Por Sérgio Alpendre (Folha de São Paulo)

Uma tartaruga atravessa um quintal debaixo de uma forte chuva. Em seu percurso estão três jovens sentados em cadeiras de praia, estáticos, como mortos-vivos. O filme é 'Cores', de Francisco Garcia, e a metáfora é clara e simplória. São vidas sem rumo, que caminham com lentidão para um destino incerto.

Os três vivem de subempregos: o tatuador Luca mora com a avó e a rouba para completar o orçamento; o farmacêutico Luiz desvia remédios de tarja preta; e sua namorada, Luara, é vendedora em uma loja de peixes.

Mas não é tanto com 'Vidas sem Rumo', de Francis Ford Coppola, que 'Cores' dialoga. Uma citação dá a deixa: Luara observa alguns peixes num grande aquário. O filme homenageado é 'O Selvagem da Motocicleta', também de Coppola.

São dois filmes rodados em preto e branco sobre uma juventude perdida. No de Coppola, apenas os peixes têm cores. No de Garcia, apenas o título.

Um pôster de 'Estranhos no Paraíso', longa de estreia de Jim Jarmusch, colocado na edícula onde trabalha o tatuador Luca, confirma: 'Cores' é um filme dos anos 1980 perdido neste confuso século 21.

Da bela fotografia em preto e branco ao repertório gestual dos personagens, mas também o cuidado com a composição de quadro e com o posicionamento da câmera, tudo no filme nos leva a uma outra época, em que essas preocupações eram mais frequentes no cinema.

'Cores', apesar de se situar nos dias atuais, nos leva à década da new wave, a uma época em que São Paulo era mais cinzenta, ou assim parecia. Nada de zoom desnecessário ou câmera que treme só porque está na moda fazê-la tremer.

O piloto que frequenta a loja de peixes representa a possibilidade de fuga do cinza e da vida sem graça. Uma abertura de horizontes que só se apresenta a Luara, que, não à toa, mora ao lado do aeroporto e vê aviões decolando o tempo todo.

Por José Geraldo Couto (Instituto Moreira Salles)

Mais que uma mera boutade, a ironia de intitular de Cores um filme rodado em preto e branco certamente encerra uma intenção mais profunda, a de contrastar as aspirações do trio de jovens protagonistas com seu cotidiano estagnado e sem perspectivas. Eles moram em bairros periféricos de São Paulo e vivem de subempregos: Luca (Pedro di Pietro) é tatuador e mora com a avó; Luiz (Acauã Sol) trabalha numa farmácia e sua namorada Luara (Simone Iliescu) é vendedora numa loja de peixes de aquário.

O contexto social e existencial não difere muito do mostrado em Um céu de estrelas (1996), de Tata Amaral, outro filme centrado na classe média baixa paulistana e que também traz um título irônico. Mas, se no huis clos de Tata a concentração espacial e a progressão dramática conduziam para um paroxismo de tragédia e violência, em Cores a opção é por um acentuado esvaziamento do drama, por uma tentativa de expressar na própria dramaturgia rarefeita o desalento das vidas fracassadas que retrata.

Como outros críticos já observaram, a referência óbvia com que o diretor trabalhou para contar sua história são os primeiros filmes de Jim Jarmusch, em especial Estranhos no paraíso, cujo cartaz aparece em dado momento de Cores. A narrativa é episódica, distensionada, acumulando tempos mortos. Os personagens, como em Jarmusch, estão como que à margem do mercado e da vida social. Passam seu tempo tomando cerveja, fumando maconha, eventualmente fazendo um sexo sem entusiasmo. Seus esboços de reação ao marasmo que os cerca dão em nada: uma tentativa atrapalhada de assalto à farmácia, uma viagem ao litoral que acaba antes de começar. Volta-se sempre ao mesmo lugar.

A iluminação, os enquadramentos e os movimentos de câmera do diretor de fotografia Alziro Barbosa são tão belos quanto precisos e 'necessários', evitando a estetização graças a uma integração orgânica com a proposta geral do filme. Alguns planos são memoráveis: uma tartaruga atravessa lentamente um quintal debaixo de chuva; um avião aterrissa na pista e a câmera, ao acompanhar seu movimento, acaba enquadrando o casal que observa a cena de uma janela.

Tudo conflui para a tensão entre movimento (virtual ou potencial) e paralisia (real). Não é por acaso que Luara mora ao lado do aeroporto e flerta com um piloto de avião que frequenta sua loja. De sua janela ela vê os aviões decolando ou aterrissando, o que faz lembrar o verso de Manuel Bandeira: 'Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir'. Mas essas lições os três amigos não têm como aprender. O voo permanece como promessa não cumprida.

Por Espaço Itaú

CORES – porque a realidade é em Preto e Branco: reflexões sobre o Brasil contemporâneo e o que foi feito dos sonhos da geração que hoje beira os 30 e poucos anos.

Por Márcia Granja (Follow the Colours)

É irônico escrever um post colaborativo para o Follow the Colours quando o assunto é a estreia de Cores, o primeiro longa-metragem de Francisco Garcia, e ele ser preto e branco.

Cores aborda uma descolorida geração em crise, onde as relações interpessoais são fracas e quase ausentes. Com isso, a ausência das cores é proposital. No cinema, cor e luz possuem dois propósitos:
_ Contribuir para a impressão de realidade
_ Construir sentido

Para compreender a cor e a luz enquanto construção de sentido em um filme, é preciso analisar contextos históricos e sociais, além da pluralidade cultural que o filme irá abordar.

Numa rápida entrevista com o diretor de fotografia do filme, Alziro Barbosa, observei boas particularidades deste filme que já despertou minha curiosidade. A trama de Gabriel Campos e Francisco Garcia conta a história de 3 amigos com um ‘bug geracional’. Todos possuem trinta e poucos anos, e não se adaptaram ao crescimento do país, nem às questões contemporâneas. Por isso, não possuem perspectivas para recomeçarem a vida aos quase 40 anos, uma vez que suas ilusões estão perdidas. Luara, Luca e Luiz retratam bem a geração dos que não se especializaram, não foram atrás de suas ambições, e hoje se sentem aprisionados pelos seus próprios ideais. Ela trabalha em uma loja de peixes ornamentais, namora Luiz e é uma moça cheia de sonhos, mas sem iniciativa para realizá-los. Luca é um tatuador que mora no subúrbio com a avó, e que se acomodou em viver da pensão dela e não se incomodar com a falta de clientela. Já Luiz vive em uma pensão no centro e trabalha numa farmácia. Ele é o mais inquieto deles, e não gosta de ter responsabilidades.

Alziro conta que a transformação não serve para eles, que, sem grandes convicções, passam o tempo bebendo, fumando e circulando pela cidade, preservando suas individualidades. Ele diz que para Luara trabalhou-se muito com reflexos, transparências e texturas acetinadas. Para Luca, por ele ser mais humanizado, utilizaram-se de fundos opacos e seu enquadramento é sempre paralelo à câmara. Por sua vez, e pela sua personalidade desafiadora, os enquadramentos de Luiz são diagonais e as cores ao seu redor, mais densas. E aponta que quando o filme é P&B, mesmo que este tratamento seja dado em pós-produção, tudo tem que ser olhado com mais cuidado: luzes, elementos, intensidade de brilhos nas locações. 'Por isso, Cores é um filme especial, pelo desafio da concepção fotográfica diante de uma construção incomum'.

Perguntei a ele o que foi mais interessante durante a produção, e, ao contrário do que o filme aborda, ele diz que a integração da equipe foi surpreendente. 'Cores é um filme de amigos rodado entre amigos, cúmplices do processo, e empenhados na colaboração do todo, sem prevalência de egos'. O filme, portanto, é um relato emocional como registro dos sentimentos de uma geração urbana. Um presente para ser sentido.

Por Pancinema

CORES é uma história de amizade e desilusão entre três jovens amigos numa grande metrópole. Paulistanos de 30 anos – Luara, Luiz e Luca, vivem um impasse existencial que parece sintomático nos jovens de classe média. O hedonismo se alterna com lampejos de lucidez, autocrítica e planos vagos para batalhar para si uma existência menos ordinária.

Com data de entréia no dia 10/maio, Cores tem um ótimo roteiro e direção. O filme é visualmente muito caprichado e algo estetizado, embora não se deva confudir esta opção do diretor com a excelente economia da fotografia em preto e branco de Alziro Barbosa. O décor remete aos anos 80, e um poster da banda The Clash parece querer indicar alguma saída para o trio: trata-se do disco London Calling: Londres Chamando. Justamente é uma viagem o único plano que Luara propõe para o seu namorado Luiz.

O tema da viagem e os anos 80 são o link do filme com Terra Estrangeira (de Walter Salles) e Cão sem Dono (de Beto Brant). Os três tematizam a situação dos jovens de classe média urbana e o vazio dos seus projetos após a falência dos grandes projetos emancipatórios num Brasil do consumismo democrático.
Este trio de filmes tem como pano de fundo o percurso da política brasileira do pós democratização: os personagens de Terra Estrangeira vivem um drama existencial e melancólico nos anos do banditismo de elite de Fernando Collor. Cão sem Dono 'casa' com o governo do autoreferente FHC. Cores acontece nos anos de otimismo do trepidante governo Lula.

A partir da metáfora da viagem como possibilidade de transformação pode-se traçar um percurso dos personagens dos três filmes que é a descida ao inferno da atonia Terra Estrangeira é um filme sobre uma viagem que foi possível. Cão sem Dono termina com uma viagem à Espanha que é um muito ingênuo projeto de transformação. Em Cores, ela simplesmente não se concretiza: a 'real' é aqui mesmo, no imobilismo.

Por Rádio Rock

O diretor brasileiro Francisco Garcia dedicou seu primeiro longa-metragem, 'Cores', a falar sobre jovens na casa dos 30 para quem o crescimento econômico do Brasil não trouxe a oportunidade de um futuro melhor.

Luca (31) é um tatuador e mora com sua avó. Ele mantém seu estúdio nos fundos da casa, em um bairro periférico da cidade. Luiz (29) mora em uma pensão no centro da cidade, faz bicos com sua moto e trabalha em uma drogaria. Luara (30), sua namorada, é uma garota que reside em um apartamento na frente do aeroporto e deposita todo seu tempo no trabalho em uma loja de peixes ornamentais para espantar a solidão e conseguir financiar uma viagem. A vida dos três amigos é marcada por uma rotina ordinária e pela alienação impregnada pela sociedade de consumo.

Eles são o reflexo da própria juventude brasileira. Longe de moralismos ou teorias deterministas, o objetivo é apenas apontar suas contradições, revelando que o maior sintoma da sociedade contemporânea é a falta de perspectiva.

Por Correio do Povo (Porto Alegre)

'Cores', filmado em preto e branco, mostra a história de três jovens comuns que se perdem facilmente na multidão de uma grande metrópole como São Paulo. Eles são o reflexo da própria juventude brasileira. Descrevendo a amizade entre estes três personagens urbanos, longe de moralismos ou teorias deterministas, o filme pretende contar uma história e apontar suas contradições, em que o maior sintoma da sociedade contemporânea é a falta de perspectiva.

O longa, um dos lançamentos deste final de semana nos cinemas, tem a direção de Francisco Garcia. Os três personagens em questão são os seguintes: Luca, um tatuador que mora com sua avó; Luiz, que mora em uma pensão e trabalha em uma drogaria; e Luara, sua namorada, que trabalha em uma loja de peixes e quer financiar uma viagem. A vida dos três amigos é marcada por uma rotina ordinária e pela alienação impregnada por uma sociedade que incentiva o consumo, mas nem sempre dá a condição para tanto. O elenco conta com Tonico Pereira, Guilherme Leme, Acauã Sol, Pedro di Pietro e Simone Iliescu.

Por Gustavo Halfen (Sobre Café e Cinema)

... A câmera de Garcia segue a mesma preguiça. Grande parte do filme ela fica estática, fotografando belos planos em PB, recheados de cultura pop nas entrelinhas, num excelente trabalho do diretor de fotografia Alziro Barbosa.

Frequentemente, o cinema nacional enfatiza o submundo de forma crua e suja, em tons sombrios. 'Cores' vêm na contramão desta tendência. O cuidado com a fotografia embeleza a decadência, além de poetizá-la, dando a sensação não de um julgamento, mas sim de uma homenagem à geração que nasceu no pós punk brasileiro e ao tédio neo existencialista que se apossa da juventude.

Por Josafá Crisóstomo (Diário do Comércio)

... O filme, por sua vez, não se presta a julgamentos. Pelo contrário, faz jus àquela construção de enredo que se pauta em uma visão muito poética do próprio cinema, das possibilidades da linguagem cinematográfica. Afinal, o cineasta em questão provou ser antes de tudo um cinéfilo. Ele bebe na tradição do melhor cinema e, assim, referenda sua história por meio de cortes muito precisos, direção de cena e tomadas esmeradas para, então, ir mostrando que há nessas personagens delicadezas insuspeitadas.

Exemplos de tais demonstrações abundam no longa, como na cena em que Luca se veste com a farda do falecido avô e dança com a velha, como chamam a avó, acompanhado sempre pelo casal amigo. Ainda, quando o mesmo personagem sai às ruas perdido na noite e ouve um Pezão (cantor da noite paulistana), cantando uma balada regada a solo de guitarra, no melhor estilo rock’n’roll paulistano. É impossível não reconhecer uma poesia muito própria do cinema no encontro de Luara com seu pretendente, um piloto de Companhia Aérea que, aliás, não sabemos se de fato existe ou é fruto de sua imaginação. Sobretudo, no minimalismo dessa cena em que só se mostra um piano, duas taças de vinho, além das personagens banhadas em um jogo de luz.

É assim que feito apenas de sonho, poesia e aventura, Cores não deixa de ser um libelo a todo aquele que ainda não encontrou forças em si mesmo para justificar os sentidos das provas de amor.

Por Erasmo Penteado (Cinema Detalhado)

Por Rodrigo Fonseca (O Globo)

Falando de Brasil, o longa nacional que mais vem sendo badalado no mercado de filmes se chama 'Cores', dirigido por Francisco Garcia e produzido por André Gevaerd, organizador do Festival Cinerama BC em Santa Catarina. O longa de Garcia faz uma crítica à cultura consumista do Brasil nestes tempos de superdesenvolvimento econômico narrando o cotidiano de três amigos que pregam o desapego material. Com uma impecável fotografia em preto e branco (que contrasta com seu título), o longa é um dos exercícios de direção de maior maturidade do cinema brasileiro este ano.

Por Laura Del Rey e Raquel Chamis (Doravante)

'Às vezes parece que o tempo tem dupla duração. Uma duração lá fora e outra aqui dentro. Ou se morre de trabalhar ou se morre de tédio'.

Em nuances de cinza, o longa Cores, dirigido por Francisco Garcia, conta a quase não-história de um grupo de amigos nascidos em meados de 80 (a década que queria ser colorida e não foi). Adultos dos anos 2000 que – diferentemente de outros – apenas observaram o crescimento econômico brasileiro sem de fato pertencer a ele. O trio de protagonistas formado por Luiz, Luara e Luca é um pedaço de geração que se sente o parágrafo mal escrito de uma história iniciada há tempos. Eles não têm heróis, fé, lutas ou paixões: pairam entre sub-empregos e tragadas de cigarro, vivendo por inércia em uma 'era de pós-tudo'.

Os papéis interpretados pelos atores Simone lliescu, Pedro di Pietro e Acauã Sol dividem 90 minutos com lugares que, sem necessidade de fala, atuam bem ali onde as expectativas não têm espaço para pousar. Cada cenário da filmagem tem o poder de um bom diálogo: uma farmácia emprega quem precisa de droga como matéria prima, uma loja de aquários cuja vendedora está presa embaixo d`água, um estúdio de tatuagem frequentado só por tatuador e nenhum cliente, um terraço ao lado do aeroporto que não faz ninguém voar.

_ Trabalhar é uma bosta.
_ A gente se acostuma.
_ A gente envelhece antes de se acostumar.

Na poltrona do cinema, nos tornamos espectadores de um marasmo que, em Cores, felizmente sabe ser poético. O tempo dilatado, a imagem quase sempre estática, a luz e as composições nos guiam por uma espécie de haute couture econômica.

A beleza visual do filme estende a mão para que o espectador navegue entre sucessivos tempos mortos, consciente ou inconscientemente esperando por algo que não vem. E que não faz falta à trama, enxuta por opção: o enredo mira de forma certeira nos personagens desbotados e em suas rotinas sem perspectiva.

As músicas, diegéticas ou não, estão fortes e bem marcadas. A textura fotográfica nos faz esquecer a tela. A 'velha' (Maria Célia Camargo) suaviza o enredo com doses precisas de algum humor e ternura.

Mas a mão pesada é definitiva quando o diretor, estreante em longas, se recusa a ter benevolência com os personagens. Luiz, Luara e Luca não conseguem transpor o contexto onde vivem, e o olhar sobre eles vem como um nocaute – que pode empurrar o espectador para frente ou para trás, jamais deixá-lo inerte.

Em texto sobre o filme, o crítico José Geraldo Couto relembrou Manuel Bandeira: 'Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir'. A reflexão que perdura é insistente. Afinal, quando tanto se diz que 'um homem sem trabalho não é um homem', o que sobra para aquele que não gosta do que faz? A resposta, que o trio de Cores tanto procura, pode estar à volta. Os cenários do filme, como os contextos de qualquer vida, não tem uma única saída. Há neles, para além da opressão, caminhos possíveis de andar – não sobre tempos mortos, mas sobre tempos vivos e mais coloridos.

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