Alziro Barbosa

Direção de Fotografia

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Iván – De Volta Para o Passado

Sinopse: Em 1942 Iván Bojko foi arrancado pelos nazistas de sua aldeia natal e levado para Alemanha para trabalhos forçados. Em 1948 ele imigrou para o Brasil como refugiado da II Guerra Mundial e nunca mais conseguiu voltar para a Ucrânia, mantendo-se ligado às tradições culturais do seu país através da música. 68 anos depois, o filme documenta o retorno de Iván Bojko à sua terra natal, numa verdadeira viagem de “volta ao passado”, já aos 91 anos de idade. Baseado nos diários de Iván, as imagens e sons funcionam como canais de acesso a uma experiência do imaginário, que atravessam as simples lembranças do imigrante.


Ficha técnica

Roteiro e Direção: Guto Pasko

Produtora Executiva: Andréia Kaláboa

Produção Geral: Andréia Kaláboa

Direção de Fotografia: Alziro Barbosa

Operadores de Câmeras: Marcelo Oliveira e Alziro Barbosa

Técnicos Captação de Som: Roseli Ribeiro e Marquinhos Ribeiro

Montagem: Guto Pasko e Heidi Peteres

Desenhista Som: Ulisses Galeto

Formato: Digital

Duração: 109 minutos

Ano: 2011

Participação em Festivais

2012

  • 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes
  • 11º Festival de Cinema de Montevideo (Uruguai)
  • 12º Festival Internacional de Cinema de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
  • 27º Festival Latino-Americano de Cinema de Trieste (Itália)
  • 9º Festival Latino-Americano de Cinema e Vídeo

Prêmios

2012

  • Melhor Documentário – Júri Popular no FAM
  • Melhor Filme e Melhor Direção (Guto Pasko) na 9ª edição do Festival de Cinema de Curitiba

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Galeria de frames

Making of

Crítica

Por Annalice del Vecchio (Gazeta do Povo - Londrina)

Algum tempo depois de filmar o documentário Made in Ucrânia – Os Ucranianos no Paraná, em 2006, Guto Pasko foi surpreendido pelo encontro com um dos participantes do filme, Iván Boiko, que lhe presenteou com dois caderninhos espirais inteiramente preenchidos com letra caprichada e miúda.

Eram diários escritos em ucraniano sobre os anos terríveis que ele vivenciou desde que foi arrancado de sua casa, na Ucrânia, em 1942, para realizar trabalhos forçados na Alemanha, até o mo­­mento em que chegou ao Brasil com a esposa e a filha recém-nascida, fugindo do degredo na Sibéria. 'Minha primeira reação foi não aceitar, mas ele insistiu, me dizendo que precisava confiar aquilo a alguém preocupado em preservar a história daquela etnia no Brasil', diz.

Segunda pátria

Sem recursos para voltar à Ucrâ­­nia, seu Iván decidiu que viveria feliz no Brasil. 'Quando cheguei pela Ilha das Flores, rezei um Pai Nosso e pensei: ‘Graças a Deus estou aqui’. O Brasil me protegeu, me deu teto, é onde vou descansar para sempre', conta.

Ele e a família aportaram no Rio de Janeiro como refugiados, após serem libertados do jugo alemão pela tropas aliadas, na Se­­gunda Guerra Mundial. Já não poderiam voltar para casa, pois todos os que trabalharam para os nazistas, mesmo a contragosto, foram declarados traidores pelo governo soviético.

Acolhido pela comunidade ucraniana, em Curitiba, Iván foi cuidar da vida. Fazia pequenos serviços, aqui e ali, até conseguir um emprego de costureiro na Polícia Militar do Paraná, onde trabalhou por 27 anos. Ao se aposentar, manteve-se um participante ativo da Sociedade dos Amigos da Cultura Ucraniana no Brasil, no bairro Portão, a ponto de fabricar com as próprias mãos e sem qualquer conhecimento prévio um típico instrumento musical da Ucrânia, a bandura (leia mais nesta página).

Paisagens da Ucrânia

Ao percorrer 5 mil quilômetros a bordo de um ônibus, equipado até mesmo com uma ilha de edição, não faltarão belos cenários para dar concretude a esta viagem de volta para o passado. As memórias de Iván se intercalam às variadas paisagens daquele país, em um filme que flerta com o gênero road movie, com trilha sonora produzidas por banduristas. 'É um documentário de processo, ou seja, que vai se construindo à medida que as situações vão acontecendo', conta Pasko.

O diretor não costuma se colocar como personagem em seus filmes, mas decidiu abrir uma exceção em um filme que só se realiza pela relação de afeto entre ele e seu Iván. 'Quis dar a ele a oportunidade de contar sua própria história, que é também a de outros imigrantes de várias etnias que vieram para o Brasil ou foram para outras partes do mundo', diz.

O documentário, vencedor do edital de longa-metragem digital da Petrobras, deve ser lançado em 2011, por ocasião dos 120 anos da imigração ucraniana no Brasil. Com apenas R$ 415 mil de orçamento, Pasko pretende, em seu retorno ao Brasil, correr atrás de mais recursos para transformar o longa, que está sendo filmado em formato Full HD, em filme de 35 mm.

Mergulhado dos pés à cabeça na história e na cultura dos imigrantes ucranianos no Paraná, Guto Pasko quer completar uma trilogia: após Ivan – De Volta para o Passado, deve realizar um documentário sobre a relação de sociabilidade dos ucranianos de Pru­­dentópolis, sua cidade natal.

Por Bel Vieira

O tema central da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes abarca a questão do ator em expansão – movimento característico da nova geração do cinema brasileiro. Ícones do cinema nacional contemporâneo – como o homenageado da mostra Selton Mello, ou Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos, Wagner Moura, dentre outros – inauguram a interpretação cinematográfica para além da simples atuação. Movimento influenciado pelos ideais da Nouvelle Vague, e que no Brasil, pode ser visto também como uma apropriação positiva do star system devido ao sucesso destes atores na dramaturgia televisiva nacional. Menos limitados à escolha de projetos que atendam as necessidades financeiras, eles se permitem produzir junto aquilo que lhes causa como sujeito, podendo mais do que atuar, ao incluírem sua participação na pesquisa e na criação.

Diante desta proposta, nada mais cabível que o documentário Iván – de volta para o passado, de Guto Pasko, exibido na programação Cine Praça. Este retrata a história de Iván Boiko, ucraniano arrancado de sua aldeia natal pelos nazistas e refugiado no Brasil há sessenta e três anos, sem ter contato com seus familiares. Este personagem real é presenteado pelo diretor e a equipe com passagens áreas que o transportam para suas origens. E, é esta a história que assistimos: a do homem que se arrisca em voltar.

Se a mostra propõe que o ator expanda sobre a atuação, ao se envolver com a pesquisa e criação do personagem e da obra como um todo, arriscando uma interpretação cada vez mais próxima de uma experiência real, Iván nos presenteia com esta ideia em uma bandeja de ouro – assim como a verdade deve ser dada. As cenas deste filme nada mais são que a história do reencontro de Iván com seu passado, que passa pela rememoração das esquinas da cidade, da igreja da aldeia, da música cantada pela bandura, da vodka, da família, da sua casa e dos girassóis. Cada frame fotografa a emoção de noventa anos de existência capturada dos poros de Ivan à lente de Pasko.

O resgate cultural proporcionado pela viagem aborda o social que colabora para que o exílio de Iván seja tão peculiar. Sem dúvida, o retorno ao seu país provoca intensas emoções. Mas a tela não esconde o quanto de visceral e de verdade existe nas imagens em que Iván entra na casa em que viveu a infância e a adolescência. Ele beija o chão desta casa e clama pelo nome de seu pai. Sem dúvida este documentário fala de uma cultura, mas algo avança sobre isto, pois qualquer indivíduo, de qualquer outra cultura, pode ser intimamente tocado pelo filme. Talvez porque a única diferença entre país e pais seja apenas o acento, uma vez que ambos falam de origens.

Iván aceita o convite audacioso de Guto. Como um girassol, arrisca olhar para o sol, gira ao redor de sua estrela central, ou, de suas origens. Esta intrigante rotação caminha no mesmo trilho de raízes tão profundas, como as dos girassóis. A inflorescência do girassol é do tipo capítulo, significante da biologia que, quando transportado ao universo literário, significa parte constituinte de uma obra escrita. O que permite que o imaginário de Iván se mescle com o imaginário do público, é a ideia deste capítulo que resgata as origens. Não é fácil ser girassol! Mesmo que a necessidade desta energia que se busca seja vital, olhar em constância pro sol pode provocar dor. Assim como se confrontar com o primitivo das origens individuais. Mas Iván, com a sabedoria e ansiedade madura que os de corpo longamente vivido nos ensinam, empresta sua própria experiência com a memória para que o público possa pelo menos fazer refletir seus próprios girassois.

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